Santa Catarina terá o primeiro Plano Estadual de Enfrentamento ao Homicídio de Jovens Negros e Pobres do Brasil

São poucas as situações que causam tanto sofrimento quanto a morte e, quando ela inverte o curso da vida e uma mãe enterra o filho, como ocorreu com a costureira Marcilene de Jesus, é ainda mais dolorosa. Moradora da comunidade de Monte Cristo, região continental de Florianópolis, convive com o luto de ter sepultado Cristian de 20 anos, há pouco mais de um mês. Ele perdeu a vida ao ser atingido por dois tiros no peito. Dados divulgados pela Câmara dos Deputados indicam que Cristian soma-se à uma triste estatística: mais da metade das vítimas de homicídios ocorridos no Brasil são pobres, negros e do sexo masculino.

Foto: Vitor Shimomura/Ascom SST

Para mapear a situação local, Santa Catarina sai na frente e lança na quarta-feira, 30 de novembro, na Assembleia Legislativa, em Florianópolis, a proposta do projeto do Plano Estadual de Enfrentamento ao Homicídio de Jovens Negros e Pobres. À frente dos trabalhos, está o Governo do Estado, por meio Coordenadoria da Promoção da Igualdade Racial de Santa Catarina, o Conselho Estadual das Populações Afrodescendentes e o Conselho Estadual da Juventude, todos vinculados à Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Habitação.

Morte por dez reais

“Ele e o amigo de infância se desentenderam e ocorreu o crime, aqui próximo de casa”, recorda Marcilene. A discussão, segundo ela, foi por uma dívida de R$ 10. “Eles estavam bêbados”, completa a mãe enlutada. Cristian deixou um filho de nove meses, que teve com uma namorada ainda mais jovem que ele.

Marcilene sofreu um acidente de moto e está com a perna esquerda imobilizada, por isso não poderá participar do evento agendado para o dia 30 de novembro, na Assembleia Legislativa. Ela, entretanto, torce pelo sucesso da proposta para tirar os jovens das ruas. Além de Cristian, a costureira também viu morrer outros três sobrinhos, apenas um deles tinha mais de 20 anos. Todos, de acordo com ela, por envolvimento com drogas ilícitas. “Nas comunidades é assim: o jovem tem que ostentar com roupas de marca. Do contrário, é rejeitado”, conta.

O Plano

A proposta é que instituições como o Ministério Público e secretarias de Estado da Segurança Pública; Saúde; Educação; Justiça e Cidadania; e Assistência Social; Tribunal de Justiça; Assembleia Legislativa e sociedade civil integrem um comitê. “No decorrer de 2017, vamos aprofundar o debate e elaborar o plano” lembra o coordenador de Promoção da Igualdade Racial, Sandro Silva.

O trabalho do comitê será realizado com base no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados. Deverão ser apuradas as causas, razões, consequências, custos sociais e econômicos da violência, morte e desaparecimento de jovens negros e pobres. Entre as conclusões e propostas, consta a elaboração de projetos de lei e recomendações às instituições relacionadas ao tema.

Marilene Rodrigues

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