O que fazer quando você quer crescer profissionalmente e seu chefe não ajuda?

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Tenho reparado em um mecanismo bastante recorrente em muitos líderes jovens, de minha idade. Eles têm desejo de mudança, de viver grandes coisas; sonham, leem artigos em blogs, livros, assistem tutoriais, participam de conferências e armazenam uma grande quantidade de conhecimento. No fundo, se perguntam: “Por que não eu? Estou certo que sou capaz, com um pouco de esforço posso conseguir.”

Depois, o clássico cenário: eles compartilham os projetos com seus mentores nas empresas e as reações recebidas podem ser diferentes. O mentor ou o líder pode se sentir motivado por ver um jovem tomar tais inciativas, ou, por outro lado, ser totalmente relutante com este tipo de atitude.

Em 80% dos casos, o resultado é mais ou menos o mesmo: frustração do jovem líder porque não consegue o impacto que esperava. E, então, tende a pensar: “O problema está no meu mentor, é um antiquado e não é capaz de compreender a importância dos meus objetivos e do que quero fazer, não é suficiente para mim por isso e por aquilo…” Mas como quer respeitar seu líder, fica como está, e acredita que, com o tempo, as coisas vão mudar.

Permita-me contar uma parábola para explicar a minha ideia:

Desde pequeno, Julián joga em um time de futebol na comunidade em que vive. É um dos melhores jogadores da equipe, e seu treinador está muito orgulhoso dele. Julián é torcedor do Real Madrid, assiste a todos os vídeos do time, segue os jogadores no Facebook, lê as biografias deles, absorve tudo, absolutamente tudo!

Um dia, Julián tem a oportunidade de assistir a uma partida do Real Madrid. É um grande momento em sua vida! O rapaz volta visivelmente aflito. Seu treinador pede que ele conte como foi a experiência e Julián diz, cheio de segurança: um dia serei como aqueles jogadores e nosso time será tão grande e famoso como o Real Madrid! O técnico não sabe muito bem o que responder diante da ambição e da determinação de Julián; ele escuta o rapaz, o motiva, mas não se posiciona, porque não quer decepcioná-lo.

As semanas passam, e Julián leva aquela ideia cada vez mais a sério. Começa a explicar as estratégias novas que o clube deve colocar em prática, quer aumentar o número de treinos, queria que o treinador investisse em equipamentos novos, que comprasse materiais.

O treinador tenta seguir o nível de exigência do garoto, mas, no fundo, está cansado. Tem outro trabalho e também uma família para se preocupar. Sua mulher, inclusive, fica brava  quando ele passa os fins de semana com o time. Quando ele era jovem, não havia equipe de futebol no povoado, foi ele quem criou, quem investiu dinheiro e quem dedicou tempo e sacrifícios. O treinador está contente com sua rotina e com o desempenho dos jovens.

Julián, de sua parte, está frustrado, Conhece os métodos de treinamento, estuda técnicas de publicidade para tentar encontrar patrocinadores e dar visibilidade ao time. Mas o técnico não compartilha de seu entusiasmo. E parece que não enxerga a verdade.

Uma diferença de ambições

Na maioria das vezes, o que acontece é que o líder jovem erra de campeonato: joga no regional e quer se transformar em um clube internacional. Sua preocupação está no fato de que o seu treinador não está disposto a pagar o preço da mudança. Ele já se sacrificou bastante. O líder jovem vai querer trocar de líder ou pressionar para que ele mude.

O líder, então, pode decidir tentar, mesmo que se conforme com sua experiência passada. E não há nada de errado com ele, pois cada geração se constrói sobre a base da anterior; sejamos líderes, chefes ou padres, devemos nos assegurar que nosso teto seja o chão deles. O desafio aparece quando o líder jovem erra de combate e, então, deverá analisar se seu líder está preparado para os sacrifícios que a nova mudança implica (mudanças de mentalidade, formação, tempo, dinheiro…). Se não for o caso, seria melhor mudar de contexto.

E o final da história? Na realidade, há vários finais

Pode ser que Julián fique como está por acreditar que é possível que seu treinador mude e que, quando chegar o momento, eles poderão avançar juntos. Mas, os anos passam e Julián desanima e acaba por ficar estancado na rotina do dia a dia. Logo, ele se transformará em treinador e atuará da mesma forma, com um discurso parecido com este: “Eu também fui jovem como você, cheio de motivação e determinação. Mas, na realidade, isso não funciona; eu já tentei de tudo.”

A segunda opção é Julián forçar a barra com seu treinador. O técnico se coloca na defensiva porque, apesar da boa vontade, não consegue mudar. A história termina em conflito e, como consequência, o time fica dividido. Então, Julián abandona seu sonho e fecha esta porta.

No entanto, também há duas opções positivas: o técnico decide se juntar a Julián nesta nova aventura. Aceita mudar seus métodos porque não pode confiar em ter resultados diferentes e mais satisfatórios conservando a mesma maneira de atuar.

Ou, melhor, Julián decide mudar de um time local para um regional, depois a outro nacional, e por fim, a um europeu. Desta maneira, ele se beneficiará de um treinamento mais adaptado a seus objetivos e a um nível totalmente novo.

Não podemos culpar nossos líderes por nossa própria falta de crescimento. Na maioria das vezes, temos a escolha e a possibilidade de avançar profissionalmente. Podemos decidir esperar e aprender a ser pacientes, ou tomar as rédeas e agir.

Não podemos ser muito exigentes com nossos líderes. Temos que aprender a celebrar tudo o que eles nos transmitem e reconhecer, mesmo que seja anos depois, seu trabalho por nós.

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Por David Bonhomme

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