Por que o sucesso do cinema nacional não deve ser (muito) comemorado

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Nesta semana estreia “S.O.S. – Mulheres ao Mar”. Mais uma comédia brasileira. Na verdade, asegunda comédia romântica, dirigida por mulher, que se passa em um navio a estrear no Brasil em menos de seis meses, para você ver o nível de especialização que estamos alcançando dentro de um subgênero específico. É o único gênero do cinema nacional que, desde “Tropa de Elite 2”, consegue levar multidões para as salas. E isso é um problema.

No sentido mais amplo e filosófico, o êxito do cinema nacional é algo a ser comemorado. Acabou o preconceito e as pessoas aprenderam que poderiam ir para uma sessão e acabar pegando uma história bem contada. O mérito disso é do chamado cinema de retomada, em um processo que começou lá atrás, com “Central do Brasil”, se consolidou em “Cidade de Deus”, e encontrou seu ápice nos já citados “Tropa de Elite”. Mas, de lá para cá, salvo exceções, raras e sem bilheteria expressiva, a cota de filmes brasileiros é preenchida cada vez mais com comédias.

 


A questão é que a má qualidade é notória. São enredos sem pé nem cabeça, com atuações que, na melhor das hipóteses, são medianas. E, na hora de fazer graça, falham miseravelmente. Nesse sentido, a culpa é dos roteiristas, que parecem não compreender como fazer humor, ou como uma piada funciona estruturalmente – criar uma expectativa e subvertê-la é o jeito mais básico e simples e nem isso é alcançado. O resultado final é, quase sempre, vexaminoso.

Mas fazem sucesso. E muito. Basicamente porque ao mesmo tempo em que a audiência nacional aprendeu a ver filmes brasileiros nos cinemas, ela vinha passando por um longo processo de desalfabetização audiovisual, feita, basicamente, pela teledramaturgia da TV aberta. Tudo com a desculpa de que as pessoas se afastariam de formas narrativas mais complexas, depois de um dia ou semana duros de trabalho – Dias Gomes, autor de “Roque Santeiro”, “Saramandaia”, “O Bem Amado”, entre tantas outras novelas com narrativas complexas e elegantes, se revira no túmulo.

 


Entenda: o cinema, assim como a arte, é uma linguagem como outra qualquer. Por isso, para que seja compreendido, é preciso que o público conheça o alfabeto que forma essa linguagem. É por esse motivo que pessoas que não entendem de arte acham que pinturas modernas e contemporâneas parecem rabiscos infantis. Elas não foram alfabetizadas para compreender o discurso que está por trás da abstração.

Um público ignorante – no sentido de “não deter o conhecimento” e não no de “estúpido” – junto de roteiristas que não entendem como fazer cinema acabam criando esse limbo cultural que se tornaram as salas de cinema brasileiras. Salas cheias de gente rindo de coisas que não tem graça.

 


E se você acha que eu sou um desses elitistas culturais que não entende o que o grosso da população gosta, façamos um teste. Tente se lembrar de 10 coisas realmente engraçadas que você viu em comédias nacionais. Não rola, né?

O curioso nisso tudo é que as mesmas produtoras que hoje injetam dinheiro em besteiras, como”Até que a Sorte Nos Separe”, “E aí, Comeu?” e “Muita Calma Nessa Hora” – todos terríveis – são as mesmas que alguns anos atrás nos brindaram com “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”, por exemplo. Sucessos relativos de público que são ótimas produções, com uma narrativa interessante e, acima de tudo, legitimamente engraçadas.

O que segue um mistério é: como é que roteiros tão vazios seguem garantindo financiamento através de renúncia fiscal?

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